sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sabes que estás na Suécia há demasiado tempo quando




Já não reages às palavras "full fart" (em Sueco: "a toda a velocidade").

Também já não reages à palavra "slut" (final, fim).

Nem à palavra "bra" (bom, bem).

Nem à palavra "kock" (cozinheiro/a).

Nem à palavra "fack" (significa bolso mas também sindicato).

Nem ao nome "Jerker" (mas continuas incrédula por haver quem dê esse nome ao filho, no mundo globalizado em que temos, em que tudo se faz "em Inglês").

Nem ao nome "Fanny" (idem).

Nem ao nome "Björn" (nome masculino, traduz-se "urso").

Nem ao nome "Sten" (nome masculino, traduz-se "pedra").

Nem ao nome "Love" (nome masculino, pronuncia-se mais ou menos "Luvéh").


terça-feira, 25 de abril de 2017

Vamos falar de suicídio


Isto é mesmo o que parece. Um post sobre suicídio à hora do pequeno-almoço.

Não querendo quebrar as cláusulas de confidencialidade que rodeiam o meu trabalho, gostaria ainda assim de abordar este assunto. Há uns tempos um dos nossos pacientes jovens cometeu suicídio. Ele não avisou. Pelo contrário. Era alegre, sorridente, tinha amigos, boas notas etc. Eu sei, porque poucos dias antes do falecimento tive nas minhas mãos a papelada dele. Não houve aviso. Ninguém estava à espera. 

Eu já não posso ajudar este jovem, mas posso falar sobre o assunto convosco aqui no meu canto. Este caso veio lembrar-me que sabemos pouco, muito pouco, sobre as pessoas que nos rodeiam e que tragédias deste género podem acontecer quando menos esperamos, a quem menos esperamos. É importante estar atentos a quem nos rodeia, acabar com o tabu que rodeia estas questões, fazer perguntas, falar, estar atentos a sinais, oferecer uma mão e um abraço.

Este jovem relembrou-me que nem sequer devemos esperar que haja sinais. Deve-se agir de forma preventiva. Fazer perguntas de forma aberta. Explicar aos jovens que é normal ter dias e fases más, às vezes muito más, mas que não precisam de ficar sozinhos com os seus problemas e que não devem ter vergonha de falar com adultos de confiança (pais, familiares, professores e outros) e pedir ajuda. O papel do adulto é estar disponível, receber informação da forma mais calma possível e levar estas questões a sério, não classificar apenas potenciais sinais como "problemas/fases/dramas de adolescentes", como vejo tantas vezes. O papel dos adultos é educar os adolescentes não apenas para as coisas práticas (escola, hobbies, responsabilidades...) mas também para a vida emocional, e pessoalmente acho que esta última parte é muitas vezes descurada, em parte pelas limitações dos próprios pais. E com "educar para a vida emocional" não quero dizer medicar os jovens ao mínimo sinal de problemas, mas sim falar com eles, ensinar-lhes estratégias para cuidarem de si mesmos, da sua vida emocional e para aprenderem a lidar com os seus sentimentos. "É mais fácil dito que feito". Sem dúvida. Mas é tão importante fazer um esforço.

P.S. Não quero, com isto, culpabilizar os pais do jovem. Isso não faria sentido por vários motivos que aqui não posso discutir por motivos de confidencialidade. Falo numa perspectiva geral e colectiva. É preciso falar com os jovens sobre saúde mental.

Linhas de apoio (clicar nos links):
Página com vários contactos de apoio 
SOS voz amiga 
Telefone da amizade

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eu também tenho uma opinião sobre a Eurovisão


Suécia
Os suecos vibram com a Eurovisão, e sabem a fórmula mágica de cor e salteado: pop à força toda + Inglês + melodia alegre + performance chamativa, de preferência com alguns efeitos  visuais. Só falta mesmo a nudez. O rapaz podia cantar melhor mas acho que tem potencial.



Portugal
A música é tão bonita, tão romântica, tão fofinha! E a voz! Ganharia apenas pela voz, se o pessoal da Eurovisão não fosse mais dado ao pimba, aos efeitos visuais e à nudez. 


Alguns vídeos de reacção à nossa canção, para a auto-estima!




"Timeless quality". Pois é. 




quinta-feira, 13 de abril de 2017

"A comida Portuguesa é do pior"


Outro dia no trabalho. Um grupo de colegas que não conheço está à conversa na sala de convívio, ou como os Suecos lhe chama, a sala-de-tomar-café (fikarum). Eu estou no meu gabinete mas tenho a porta aberta e elas falam tão alto que é impossível não ouvir a conversa. E de repente ouço uma delas:

"Uma pessoa está em Espanha e a comida é óptima. Mas depois chega-se a Portugal e é do pior, não sabe a nada, não usam sal, não usam temperos, não usam molhos, cozinham as coisas por demasiado tempo!"

E foi nessa altura que decidi fechar a porta do meu gabinete. Eu já estava careca de saber que a gastronomia Portuguesa no geral não é para os Suecos (nem a deles é para nós), e a rapariga tem o direito a exprimir a sua opinião. Mas foi a primeira vez que ouvi uma opinião tão directa, tão sincera  e acima de tudo tão negativa sobre a nossa gastronomia. Já para não falar da comparação com a Espanha. O meu orgulho sofreu. Mas aqui entre nós, tenho quase a certeza que a menina nunca experimentou um bom arroz de marisco. Só pode.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Uma verdade simples sobre os refugiados


O Facebook e restantes redes sociais andam cheias de verdades simples sobre os refugiados. Esta é a minha. 

A maioria dos refugiados também anda a fugir de atentados terroristas. Disso e de muito mais. Andam a fugir de coisas que não conseguimos sequer imaginar, no conforto das nossas vidas. Nós e a maioria dos refugiados temos inimigos em comum - a violência, o terror, o extremismo, a perseguição. E eu atrevo-me a dizer que para a maioria dos refugiados esta luta é muito mais pessoal do que para o cidadão comum. Tal como o cancro é uma luta mais pessoal para quem tem ou já teve cancro do que para que não tem e não teve. 

Condenar os refugiados pelo ataque terrorista não soluciona o problema que está na origem do terrorismo, aliás, redirecciona a atenção dos verdadeiros culpados para pessoas inocentes que querem uma vida em liberdade. Cria um problema novo na vida de pessoas inocentes que já sofreram mais do que algum dia deveria ser permitido sofrer-se. Cria mais ódio e intolerância na sociedade, e é exactamente isso que os grupos terroristas querem.



domingo, 9 de abril de 2017

Onde estavas no momento do ataque terrorista em Estocolmo?


Estava a duas estações de metro do local onde aconteceu mas não me apercebi de nada até que recebi uma mensagem da minha irmã do meio a perguntar se estava tudo bem. Segundos depois, encerraram o metro e restantes transportes públicos. Fui para casa a pé, uma caminhada de 45 minutos. Nunca vi tanta gente nas ruas de Estocolmo, tantas ambulâncias e carros da polícia. O ambiente estava diferente, o ar estava diferente. Pelo caminho troquei mensagens, fiz e recebi telefonemas, pensei na loucura de tudo isto, pensei nas famílias inocentes cujas vidas mudaram para sempre nesse dia, pensei na forma como este ataque vai ser usado como pretexto para exacerbar o racismo já existente, pensei no que está a acontecer à nossa sociedade, pensei na sorte que tive por não ter sido pessoalmente afectada pelo ataque, e chorei.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Fim-de-semana de neve e sol


Fomos a Sälen com um grupo de amigos. Sälen é uma aldeia + resort de ski e snowboard muito conhecido na Suécia por ser perfeito para famílias e principiantes (como eu). E lindo. O sítio é lindo. E foi lá que, com o melhor e mais paciente professor privado do mundo (o meu menino), aprendi a fazer snowboard. 

Nós os dois a apanhar solinho
O descanso da guerreira
A primeira vitória do fim-de-semana: conseguir levantar-me na prancha sem começar a deslizar descontroladamente pela montanha abaixo. 
A casa "dos trolls". Os trolls são figuras centrais nos contos e lendas tradicionais da Suécia, mas isso é assunto para outro post.
Olá sol!
Alojamento

À espera dos amigos no after-ski
Sälen é tudo o que eu poderia querer num resort e ainda mais. Toda a área é dedicada ao lazer. Tem restaurantes, bares, spa, cafés especializados em waffles (é uma espécie de tradição, obrigada Suécia!) e chocolate quente, lojas, supermercado, cabeleireiro e cabinas de alojamento muito fofinhas com sauna privado. Tem professores e pistas fáceis para os iniciantes (e a minha recomendação pessoal é recorrerem a aulas privadas se não tiverem experiência e especialmente se quiserem andar nos elevadores - é mais difícil do que parece!), mas também tem pistas mais difíceis para os mais experientes. Depois de um dia nas pistas, vai-se directamente para o "after-ski" ainda com as roupas do dia = pressão 0 para se estar gira/chique/apresentável. Yay!

Gostei e recomendo.