quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"A vida na Suécia é igual à vida em todo o lado"


Já tinha ouvido este discurso antes, e há uns dias aconteceu outra vez. "A vida na Suécia é igual à vida em todo o lado. Trabalhas, voltas a trabalhar, no final do dia os miúdos chegam da escola, fazes o jantar, passas a semana a sonhar com o fim-de-semana, passas o fim-de-semana a fazer coisas banais para as quais não tens tempo durante a semana como comprar roupa para os miúdos, o fim-de-semana passa num instante e depois é domingo à noite estás a preparar marmitas para a semana". 

E eu a pensar para com os meus botões: até podia ser igual. Com a ligeira diferença de que sais do trabalho às 16:30 todos os dias sem que olhem para ti de lado e podes gerir o teu horário de trabalho como bem te apetece, ou seja, trabalhar umas horas extra aqui e acolá e tirar uma tarde/manhã de folga num dia à tua escolha (nem todos os locais de trabalho permitem isto, mas é bastante comum). 

Ainda ponderei explicar as diferenças entre a Suécia e Portugal, mas cheguei à conclusão que não tinha o dia inteiro...

P.S.: E falar em "semelhanças". Hoje celebrámos, com bolo de chocolate, a licença de paternidade de meio-ano (!) que um dos meus colegas de estágio (não é estagiário, mas sim colaborador "normal") inicia amanhã. No total tem-se direito a um ano e meio (!) de licença de maternidade, e o pai tem direito a usufruir de uma boa fracção desse período.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vida de estudante vs. vida de proletária


Eu não me lembro bem como era em Portugal, mas cá no reino não é costume ter-se aulas todos os dias ou mesmo mais do que uma aula por semana. E quando temos aulas, normalmente não começam antes das 10:15 (nas universidades as aulas e reuniões começam sempre às "e um quarto"). Temos bastantes trabalhos de grupo, pelo menos no meu curso (serviço social), mas gerimos o nosso tempo como bem nos apetece e acabamos por ter bastante tempo livre. É tudo muito bonito, até que chega a hora de fazer um horário normal de 40 horas semanais e trabalhar das 8:00 às 16:30 (o estágio), com tudo o que isso implica, acordar às 06:00, preparar roupa apresentável (de acordo com o padrão sueco, ou seja, bastante casual... mas ainda assim), preparar a marmita, não poder fazer compras quando o resto do mundo está a trabalhar etc. Em que é que me fui meter?!

Mas agora a sério. O estágio, na unidade de reabilitação para o trabalho da agênca estatal de emprego, está a correr muito bem e todos os dias verifico (também graças ao meu part-time) que escolhi o curso perfeito para mim e que mudar de rumo já na idade adulta, com todos os sacrifícios que isso implica, está a valer muito a pena.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dizem que sou corajosa


Uma das coisas que as pessoas costumam dizer-me quando lhes falo da minha decisão de emigrar, é que sou corajosa. E eu costumo responder que tinha apenas 20 anos quando emigrei, e que por sorte ou azar nunca fui uma jovem que pensasse muito no futuro. Pensava muito (no passado, no presente), mas o futuro nunca me ocupou muito tempo. Vim para a Suécia à aventura, com duas malas e sem plano, e apenas com o objectivo de ser financeiramente independente e de realizar dois sonhos de infância: viver no estrangeiro e ser hospedeira de bordo (emigrei na sequência de arranjar trabalho na Ryanair). Não pensei mais além e hoje sei que essa inocência foi uma benção porque me protegeu de muitos medos e angústias nos primeiros tempos. Por isso não acho que tenha sido corajosa. Acho que é mais corajoso quem emigra com filhos pequenos, ou quem deixa esposos e filhos para trás. E, na mesma medida, acho que é corajoso quem decide ficar. Ainda não consegui decidir quem é mais corajoso, se é quem emigra ou quem fica.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Joana responde #2: Vives na Suécia? O Inverno deve ser terrível, não é?


Depende muito do sítio onde se vive. Eu ando muito por Örebro e Estocolmo. Este inverno a temperatura mínima chegou aos -19 e acho bastante desagradável andar na rua com essa temperatura, especialmente se fizer vento. Mas também temos dias em que faz -5 e está-se bem. A temperatura mais baixa que já tive o prazer de sentir foi -28 há uns anos atrás. 

Algumas coisas sobre o inverno na Suécia...

#1 As temperaturas variam imenso diariamente, e chega a fazer entre 10 a 15 graus de diferença de um dia para o outro. Talvez por isso, muitos suecos têm em casa um termómetro especial que mostra a temperatura exterior e que consultam todos os dias antes de sair de casa para saberem o que vestir.  

#2 Há períodos em que escurece às 14.30 ou às 15.00. Até ao solstício de inverno, lá pelo Natal, os dias ficam cada vez mais curtos e após o solstício a coisa dá a volta e os dias ficam cada vez mais longos (até ao solstício de verão, em junho). Para mim a escuridão é a parte mais chata do inverno, especialmente nos períodos em que está escuro quando se sai de casa e também quando se sai do trabalho ou da escola. Em compensação, no verão os dias são muiiito longos e pelas 02.00 ainda é de dia!

À saída do estágio, 19/01/2016 às 16.30. Ainda está de dia!

#3 As ruas ficam muito escorregadias com a neve e o gelo e às vezes lá se tem um acidente, mas com o calçado certo e os olhos bem atentos no chão tudo é possível. Eu nunca compro botas de outono e inverno com solas "lisas" porque são quase como esquis. Quantos mais relevos a sola tiver, melhor. 

#4 As casas são bem aquecidas. Mesmo nos dias mais frios, anda-se em casa à vontade e isso faz toda a diferença. Incomoda-me muito passar frio dentro de casa como em Portugal.

#5 Passa-se muito tempo em casa. E o Netflix é o nosso melhor best friend forever.

#5 O ar é seco. Apesar de ser chato para a pele e os lábios, o ar seco faz com que mesmo as temperaturas mais baixas não sejam assim tão más. Passo mais frio em Portugal com 5 graus do que na Suécia com -5 porque em Portugal há muita humidade e as casas são muito frias. Além disso, não gosto nada de chuva e nesse sentido o inverno sueco é perfeito.

#6 Há muitos suplementos alimentares, e baratos.  Este ano ando numa de chás!

Chá "luz solar", com vitamina D + chá com vitamina C para o sistema imunitário.
#7 Começa a poupar dinheiro. Um bom casaco de inverno para as temperaturas mais extremas chega a custar 300 euros. Uma alternativa é comprar um casaco mais barato/mais fino e usar algumas camadas.

#8 Se estás doente, tenta ficar em casa. Se vais trabalhar doente o mais provável é os teus colegas suecos passarem o dia a olhar de lado para ti e a sugerir discretamente que não andes por aí a contagiar o pessoal. O primeiro dia de baixa (karensdag) não é pago mas os restantes sim.

#9 O frio não é desculpa. Só a partir dos -35 ou -40 é que a vida pára. Até lá continua tudo normalmente, excepto os autocarros e comboios, que se atrasam mais do que o costume.

#10 Há muita gente que insiste em continuar a ir para a escola ou para o trabalho de bicicleta apesar da neve e do gelo e, é claro, do vento fresquinho. Oremos!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A melhor exportação portuguesa de sempre


Entretanto no trabalho, estou à conversa com um adolescente refugiado do Afeganistão que, depois de me pedir conselhos sobre a sua vida amorosa (gosta de uma rapariga e quer convidá-la para um encontro), fica curioso sobre a minha nacionalidade.

Ele: És sueca?
Eu: Não.
Ele: Então?
Eu: Adivinha...
Ele: Hmm. Síria?
Eu: Não...
Ele: Irão?
Eu: Não...
Ele: Líbano?
Eu: Não... Sou europeia.
Ele, com cara de choque: Europeia?!
Eu: Sim. Do sul da Europa.
Ele: Bósnia?
Eu: Não.
Ele: Itália?
Eu: Não...
Ele: Espanha?
Eu: Não, mas estás quase lá!
Ele: França?
E foi aí que desisti...
Eu: Sou de Portugal! 
Ele: Aaah!! Gosto do Cristiano Ronaldo.

E eu só digo isto:
1. Se me dessem um euro por cada vez cada reacção deste género, já dava para vos pagar um jantar a toda/os. 
2. Um dia destes hei-de enviar uma carta de agradecimento ao CR7 por pôr o nosso país no mapa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

6 coisas sobre a Suécia


A vida é vivida de acordo com as estações
Não é "há três meses atrás fui ao cinema ver o filme X". É "no outono fui ao cinema ver o filme X". 
Não é "em abril vou mudar de casa". É "na primavera vou mudar de casa".

As pessoas são ordenadas pelo ano de nascimento
Não é "tenho vinte anos". É "sou de 1996" (e assim vou sendo obrigada a fazer contas de cabeça).

Cuspir na calçada é aceitável, até para a mais delicada menina
...mas assoar-se ruidosamente em público, como fazemos em Portugal, é uma gaffe e meia.

Comida internacional
Os suecos amam gastronomia internacional. Há restaurantes de todo o mundo: Japão, Itália, Líbano, Eritreia, França, China, Estados Unidos, América do Sul etc. Mas em compensação é bastante difícil encontrar restaurantes típicos suecos. 

Conforto acima de tudo
No geral as suecas produzem-se mais do que nós portuguesas quando saem à noite. Extensões, pestanas falsas, solário, creme de bronzeamento, vestido milimétrico, vale tudo. Mas no que diz respeito ao calçado, o mais normal é usarem sapatilhas (ou ténis, vá) ou botas rasas independentemente do resto do visual, o que resulta em combinações um bocado estranhas. 

E falar em calçado, as meias são acessórios importantes
Quando se vive na Suécia as meias passam a assumir uma nova importância. Uma vez que não se pode usar sapatos dentro de casa, convém as meias estarem em bom estado e de preferência combinarem com o resto do visual. Antes de "entrar no sistema", usei meias brancas numa festa de Passagem de Ano (estava cheia de pressa para sair de casa e não me passou pela cabeça que fossem ficar visíveis porque estava de botas). Imaginem a minha figura nas fotos! Anyway. Há quem leve as suas próprias pantufas quando visita familiares e amigos em casa. Também há quem tenha alguns pares de sapatos para uso específico dentro de casa. Fica o aviso: a forma mais fácil de insultar um sueco é não tirar os sapatos à porta.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Estão -17 graus lá fora


E eu tirei as luvas para documentar a vista aqui das redondezas. As coisas que se fazem por um blog.