No outro dia apercebi-me que, se tudo correr bem, falta menos de um ano para terminar a minha licenciatura em Serviço Social. Há dois anos e meio cheguei à Universidade de Örebro com uma sensação insacudível (acho que acabei de inventar esta palavra, significa algo que não dá para sacudir, ok?) de não pertencer ali e à espera do momento em que me perguntassem o que estava ali a fazer, e se achava meeeeeesmo que iria dar conta de trabalhos, exames e teses universitárias com o meu sueco acabado de aprender. Eu já tinha feito uma licenciatura, mas decididamente não em sueco. Foi em português, em Portugal, e parece que foi há duas vidas atrás. De qualquer forma, em breve dei comigo a corrigir textos de pessoas nascidas e criadas na Suécia, mas a sensação de não pertencer ali ficou. Lição: os elogios todos do mundo só fazem diferença se os conseguirmos "receber" e quanto às conquistas, apenas sentimos orgulho delas quando nos permitimos senti-lo. E no meu caso demorou. Era a minha insegurança relativamente ao meu sueco. Era o facto de ter acabado de me mudar para Örebro. Era o facto de ser a única imigrante europeia e "nova" numa turma em que a grande maioria é sueca das cidades e aldeias mais próximas e a restante parte é imigrante de segunda geração, já nascida na Suécia. Era o facto de estar a mudar de rumo aos 26 anos (o que na Suécia é mais do que comum... mas eu não sou sueca). Era o facto de a minha situação financeira mudar bastante para pior, ou seja, passar de trabalhar a tempo inteiro e receber um salário a ser estudante a tempo inteiro (sendo que os estudos são grátis e cada estudante recebe o chamado CSN, composto em parte por uma bolsa de estudo e em parte um empréstimo a juros baixíssimos, tudo junto são cerca de 1000 euros, o que na Suécia é uma espécie de limite mínimo para viver). Eram as dúvidas e comentários das pessoas que me rodeavam (que houve). E eram mais uns factores psicológicos e pessoais que não quero discutir aqui. As perguntas foram muitas e constantes, e passei muito tempo sem perceber bem o meu lugar "no mundo". Foi como passar por uma segunda adolescência, mas na idade adulta e longe da minha família e dos meus pontos de referência.
Como vos dizia, a sensação demorou a passar, mas passou, e hoje não podia estar mais feliz por ter escolhido o curso que escolhi; não podia estar mais satisfeita por ter escolhido o percurso mais difícil apesar dos medos e não podia estar mais orgulhosa por não ter dado ouvidos a certos comentários. Talvez seja demasiada presunção num post só, mas que seja. Às vezes é preciso parar e celebrar. Falta apenas um ano para terminar o curso. Estou no meu segundo trabalho dentro da minha área apesar de ainda não ter concluído a licenciatura. E (o mais importante de tudo) estou numa área no qual posso despojar todo o meu coração. Porque segui o meu coração.