segunda-feira, 12 de março de 2018

Arranjar casa em Estocolmo - como é?


Pré-aviso: não quero desanimar ninguém mas ao mesmo tempo perguntam-me bastantes vezes se é fácil arranjar casa em Estocolmo e eu não vos vou mentir porque não quero que ninguém venha ao engano. Eu gosto muito de Estocolmo. É uma cidade muito bonita, tem os melhores transportes públicos do mundo e as condições de trabalho (na Suécia no geral) são do melhor. A Suécia é o país ideal para criar filhos, é o país ideal para quem gosta de decoração de interiores e minimalismo e roupa preta, para quem gosta de falar de exercício e de participar em corridas, para quem gosta de cerveja artesanal e de churrascos no parque, para quem gosta de fazer compras online, para quem gosta de celebrar o Festival da Canção (Melodifestivalen ou Mello para os amigos), para quem gosta de ir a concertos de pequenas bandas independentes, para quem gosta de bares hipster e de pubs irlandeses, para quem gosta de tatuagens e empresas de IT, para quem gosta de ver homens com cães pequeninos e a empurrar carrinhos de bebé com um latte take-away na mão, para vegetarianos, para quem gosta de comida internacional, de pizza de kebab e de massa com ketchup e até para quem gosta de andar na água, literalmente.

Eu a andar no lago gelado
Estocolmo tem as suas qualidades mas o mercado imobiliário não é uma delas e quem quiser dar o salto e mudar para cá deve vir prevenido. Começando pelo início:

É difícil encontrar casas e apartamentos de aluguer em Estocolmo. Tanto, que empresas como o Spotify ameaçaram o governo que se a situação não mudar, as instalações da empresa serão mudadas para outros países. Tudo porque os funcionários não encontram sítio onde morar. 

Há apartamentos para alugar mas a renda é muito cara. Fiz um estudo de mercado apenas para vocês e trago exemplos: a renda de um T0 de 23 m2 numa área boa mas não central (Sundbyberg, a 13 minutos de metro do T-Centralen) fica por volta dos 1 000 €. Por 550-600 € aluga-se um quarto na mesma área. Se for numa área mais popular, por exemplo Södermalm, a renda de um T0 pode ficar pelos 1 500 € e não é raro ver quartos a 800 €. Já numa cidade mais pequena como Eskilstuna encontram-se T2 por 850-900 €, o que é uma pechincha por comparação. Pormenor importante: por um motivo que desconheço, os Suecos "contam" a sala-de-estar como sendo um quarto. Por isso quando um Sueco vos diz que o apartamento tem "dois quartos", isso significa que o apartamento apenas tem um quarto de dormir. Se vos diz que tem "um quarto", significa que se trata de um T0.

E como se os preços não desanimassem o suficiente, muitos inquilinos requerem o pagamento de um depósito correspondente a um ou dois meses de renda e a maioria das ofertas de aluguer são a curto-prazo, ou seja, por um par de meses ou meio-ano enquanto o inquilino vai de viagem ou experimenta viver com o(a) namorado(a). Há um termo para isto: provbo med sambo. Como é tão difícil arranjar imóveis para alugar, muitas pessoas não se atrevem a abrir mão do seu imóvel e optam por alugar em segunda mão enquanto experimentam a vida a dois com o(a) amado(a). E depois há os loucos que andam por aí. Sem exageros - já vi um anúncio onde um casal procurava alugar um "quarto sem W.C. mas o ideal será alugar a uma pessoa que possa tomar duche no ginásio". E tenho uma amiga que foi burlada e pagou 1 500 € pelo depósito de um apartamento, que  nunca mais recuperou.

Pois. O melhor é mesmo investir e comprar, se houver capital. Em Estocolmo tem sido um negócio muitíssimo rentável, até recentemente porque os preços dos imóveis estagnaram e em alguns casos baixaram um pouco. Mas por lei 15% do valor da casa (o chamado kontantinsats) tem de ser pago a pronto, ou seja, sem recorrer a crédito. Digamos que encontras um T1 de 53 m2 numa área boa (Nacka) mas a certa distância do centro por 378 422 €. Terás de pagar 56 763 € a pronto, sem recorrer a crédito. 

Para pôr as coisas em perspectiva, uma pessoa que tenha um salário líquido não alto mas razoável de 2 300 € (cerca de 3 150 € brutos, dependendo do município de residência) e que consiga poupar 10 % do salário líquido por mês (230 € por mês) terá de poupar durante 247 meses, ou seja, durante quase 21 anos, para poder pagar o kontantinsats de um T1 em Nacka. Não está fácil.

Vendo pelo lado positivo: aqui os imóveis de aluguer vêm com electrodomésticos (frigorífico etc.), incluídos, e as casas costumam ser bem quentinhas, mesmo quando fazem -10 graus lá fora.

Links úteis:
Blocket para procurar imóveis para alugar (é o OLX Sueco)
Hemnet para procurar imóveis para comprar


13 comentários:

  1. Olá Joana, muito interessante. Gosto de ler sobre essas peculiaridades de cada cidade, principalmente mercado imobiliário que é a minha área. Beijos, boa semana.

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  2. Em 2010 vivi em Akarp (fica entre Malmo e Lund) durante 9 meses, e foi super dificil encontrar casa.
    Eramos 3 pessoas, e está bem que era uma vivenda, mas pagava 600€ mês.
    Para quem estava em Doutoramento era difícil. Um pouco chapa ganha chapa gasta.
    Mas viver na Suécia das melhores coisas da minha vida e volta sem qualquer duvida :)

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  3. A situação parece bem parecida com a da Suíça. Aqui o aluguel é muito caro, principalmente em Zurich, Genebra e Lausanne. E a procura é altíssima, as pessoas já não tem onde morar. Esse fim de semana saiu no jornal uma casa que recebeu 500 visitantes rs... isso porque era subsidiada pelo governo, então "barata"(2500 francos por mês). O mercado imobiliário nesses lugares inviabiliza a vida das pessoas, por vezes....

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  4. Ui e eu que pensava que isto aqui em França era complicado...

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  5. No Luxemburgo tambem nao é facil alugar casa. Alem dos alugueres exurbitantes, tens de ter tres meses de caução ( 3x o valor da renda) 1 mes para a agencia e o mes que entras. Alem de contato de trabalho definitivo e ja te pedem 6 fichas de salario ...

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  6. Aparentemente existe pouca construção, daí a falta de casas, mas não se entende ou há alguma restrição para o crescimento das cidades? Uma pena, um país tão bom para se viver...

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  7. Quando vivi em Londres era a mesma coisa. Felizmente que agora, em San Antonio, o que não falta são casas e espaço! :D

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  8. Pelo visto os problemas com moradia estão generalizados na Europa. Grandes centros, cidades importantes são os lugares mais caros para se morar e a dificuldade para se encontrar uma casa/apartamento também é grande. Aqui na Holanda as novas construções ganharam um gás e há muitos novos empreendimentos pelo país. Um quarto a 500-600 euros...aqui não está muito atrás, não.

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  9. Aqui também nos disseram que temos de ter 10% do valor da casa para poder comprar, pelo que já andamos a tentar poupar tudo o que podemos =P

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  10. olha, o inverno da suécia me assusta, mas fiquei morrendo de vontade de mudar praí depois da tua descriçäo. mas, cara, que complicado viver em estocolmo!

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  11. Fogo...e' como Londres. Uma pequena fortuna! Por um T0 ando a pagar £950 ao mes e nem vivo no centro!

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  12. Amei a foto pisando no lago congelado.
    Nossa, que interessante, essa de contar a sala como quarto. Muito louco isso. E é caro viver em Estocolmo mesmo. TO, pelo que entendi, é o no Brasil chamamos de kitnet (sala, cozinha e banheiro).

    Beijossssssss
    ┌──»ʍi૮ђα ツ

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