segunda-feira, 20 de maio de 2019

O amor (entre outras coisas) na Suécia


Há anos atrás (literalmente) eu prometi um post sobre a "dating culture" na Suécia. A sério! Foi antes de os meus dias consistirem em trocas de fraldas, passeios de carrinho e encontros de mamãs e bebés. As oportunidades de fazer observações antropológicas não são muitas hoje em dia... Mas o tema não deixa de ser interessante e se procurarem no Google vão encontrar montes de artigos sobre ele porque o "dating" aqui na Suécia não deixa de ser algo sui generis. Aqui vai:

Pagar pelo café
Cada um paga o seu. Não há aquela coisa de o homem pagar a conta,  porque poderá ser interpretado como um gesto machista. A mesma coisa se aplica a abrir as portas e outros gestos de cavalheirismo. Há Suecos que ainda assim se comportam como cavalheiros, mas normalmente são os que já viveram no estrangeiro e adoptaram novos hábitos.

Fika
E por falar em café, o "ritual" mais comum quando se está interessado em alguém é a fika, ou seja, ir tomar um café (e um bolinho, mas nem sempre). Ir jantar é normalmente considerado como algo mais formal, algo para casais "a sério". 

Imagem daqui

Tomar iniciativa
O melhor é não ficar à espera que um Sueco demonstre interesse ou tome a iniciativa de convidar para uma fika. Aqui as mulheres tomam iniciativa, tanto ou mais que os homens. 

Knullkompis, ou KK
É a equivalência Sueca ao "amigo colorido", mas sem eufemismos. Knull vem do verbo knulla, que significa… hmm… o ritual de acasalamento ;) Kompis significa amigo/a. 

SMS, muitas SMS
A comunicação é feita por SMS ou, para os mais jovens, por "snaps". E convém não responder demasiado rapidamente, nem demonstrar demasiado interesse.

Os... rituais de acasalamento
Não há aquela noção que se vê nos filmes americanos do "Oh não! Dormimos juntos antes do terceiro encontro e agora ele/ela vê-me apenas como amigo/a colorido/a ou pior".

Apresentar à família
Os Suecos são capazes de apresentar a miúda que conheceram no bar no Sábado à noite e que levaram para casa às 03:00 aos pais no dia seguinte, se for preciso. Apresentar à família não significa que a relação é séria. 

Noivado
O noivado à Sueca não é sinónimo de surpresas românticas. Normalmente os casais decidem que querem ser noivos, vão comprar anéis de noivado (simples e idênticos) juntos e depois organizam um "lanche de noivado" para a família mais próxima, onde se comemora o noivado. Ficar noivo é muitas vezes o objectivo em si e não um passo na direcção do casamento. Há casais que são noivos há mais de vinte anos.

O casamento
Os casamentos são normalmente pequenos, modestos e informais. O preço por pessoa é muito elevado e é o casal que paga pela boda na íntegra (já mencionei que é um povo muito independente? tema para novo post), por isso o número de convidados é limitado. Não convidam parentes afastados apenas por fazerem parte da família, não convidam colegas de trabalho, não convidam amigos dos pais, vizinhos etc. Muitos pedem para as pessoas não trazerem crianças, mas penso que por outros motivos (o consumo de álcool, ver o meu post anterior). Os trajes são bastante informais. Muitas das decorações são feitas à mão e sei de quem tenha feito buffet de comida trazida de casa.

Mas a diferença mais curiosa, penso eu, é que os pais não levam as filhas ao altar. É considerado um gesto machista, porque a filha não é "propriedade" do pai.

P.S.: Para entender a cultura Sueca há que ter em mente que é uma cultura extremamente liberal e que os Suecos dão muito valor à igualdade, o que se reflecte nos rituais de conquista, aos casamentos etc. E como em tudo o resto, é difícil descrever uma cultura sem uma dose de generalização. Há excepções à regra, obviamente. Estas são apenas as minhas humildes observações.

domingo, 12 de maio de 2019

Os Suecos e o álcool (um desabafo)


Este post também se poderia chamar "Das diferenças culturais" entre a Suécia e Portugal. No outro dia entrei numa "discussão" num grupo de mães no Facebook. Uma das mães tinha sido convidada para um baptizado no qual seriam servidas bebidas alcoólicas, penso que champanhe, o que a deixou chocada. Escreveu então um post a perguntar a opinião das demais. Recebeu dezenas de comentários - a maioria das mães concordava que é "errado", inadequado, quase imoral o consumo de bebidas alcoólicas em todos os eventos nos quais há crianças, inclusive baptizados e festas de aniversário infantis. 

Isto é algo que não me surpreendeu, afinal já estou aqui há anos largos, mas não deixa de me incomodar. Acho que é saudável para as crianças aprenderem com os adultos que é possível beber com moderação, sem se ficar embriagado. Que o álcool pode ser consumido por prazer e não com o objectivo de beber até cair. Se não forem os adultos a ensinar o consumo saudável de álcool às crianças, quem vai ensinar? Quando penso na minha infância, lembro-me de ver os adultos a beber um copo ou dois de vinho em festas e encontros, algo que sempre foi muito natural para mim. Agora que sou adulta, raramente bebo (mesmo antes de engravidar da Luisinha) e quando bebo, é em pequenas quantidades. Foi mais ou menos isto que escrevi no meu comentário, o que criou uma certa comoção. Não consegui passar a minha mensagem, de todo. 

Pensei bastante no assunto e até comentei com Noivo, que é Sueco. Falámos das diferenças entre Portugal e a Suécia no que diz respeito ao consumo de álcool. Em Portugal é normal beber um copo de vinho ao almoço/jantar no dia-a-dia. Os Suecos vêem isso quase como um sinal de alcoolismo. No entanto, acham normal beber até cair aos fins-de-semana, algo que em Portugal (penso eu) não é bem aceite, especialmente depois de passada a fase universitária. Quando bebem, bebem a sério. Todo o santo encontro de fim-de-semana é desculpa para beber e chega a ser difícil esconder uma gravidez porque desconfiam logo assim que uma pessoa pede uma bebida não-alcoólica. E chovem os comentários: "Então... Tens algo para nos contar? He he.". Comentários como "Não queres mais?", "Tens a certeza que não queres um shot?" também são muito normais. (Felizmente para mim, Noivo é mais Português do que Sueco em relação ao consumo de álcool). 

Enfim, eu teeeento ser tolerante e aceitar as diferenças culturais, integrar-me etc e tal, mas confesso que esta questão me incomoda. E o puritanismo deles, o "atirar pedras" a quem escolhe servir um copo de champanhe para celebrar um baptizado não ajuda, especialmente porque no geral têm das atitudes mais estranhas em relação ao álcool com as quais já me deparei. 

É tudo por hoje, quando voltar estarei mais bem-disposta.